terça-feira, 19 de abril de 2011

Ele só queria a sua familia.


Ontem eu estava no shopping com a minha irmã, quando meu celular tocou, era o meu pai, ele me perguntou se eu tinha dinheiro pra comprar um cachorro quente para um menino de 11 anos que estava abandonado e tava com muita fome, eu pensava que era um menino sujo, com roupas rasgadas, e fui naquele mesmo instante para igreja. Chegando lá passou um menino por nós, não acreditei que poderia ser aquele menino, ele era tão lindinho, menino bem cuidado, ele foi ao banheiro e eu subi para o salão principal.
Ficamos lá todas conversando, quando ele aparece na porta da escada com os braços por dentro da blusa para tentar escapar do frio que sentia. Ele se sentou perto de nós e então minha mãe começou a falar com ele, falando pra ele ir pra casa dele, mas ele morava em um abrigo, ele não queria voltar pra lá e estava decidido a passar aquela noite na rua mais uma vez, ele já estava na rua há cinco dias, cada frase que ele falava me cortava o coração.
Meu pai chegou com o cachorro quente pra ele, ele deu uma mordida e disse que iria deixar o restante pra mais tarde porque no meio da noite ele teria mais fome, eu estava lutando contra as lágrimas que insistiam em querer rolar. Na conversa que a minha mãe estava tendo com ele cada palavra que saia da boca daquele garotinho me machucava tanto, como se eu estivesse levando facadas no meu coração.
Ele só queria estar com a família dele, ele não queria voltar pro abrigo, ele disse que dormiria embaixo da ponte só aquela noite, porque no dia seguinte seria dia de visita no abrigo, então ele esperaria o pai dele passar para ir para a sua casa e não pro abrigo de novo.
Em meio a tantas dores que eu sentia a cada palavra dita por ele, uma frase foi forte demais para conseguir conter as lágrimas que já estavam querendo cair, ele disse “eu só queria um cobertor”, meu Deus naquele momento foi como se eu tivesse levado um tiro no coração, não deu pra conter as lágrimas, elas começaram a rolar sobre o meu rosto sem qualquer esforço. Minha Irmã tinha uma blusa no carro, a propósito, uma blusa que ela gostava muito, ela pegou e deu a ele.
Nessa hora eu desci para o banheiro da igreja, me tranquei em uma das cabines e ali não deu pra segurar, chorei muito, vários sentimentos se misturavam dentro de mim, a tristeza de ver aquele menino naquela situação era tão grande que doía muito o meu coração, o sentimento de egoísmo era grandíssimo também, eu reclamo tanto das minhas coisas, da minha casa, e aquela criança estava há cinco dias sem uma cama quentinha, sem uma comida gostosa, ontem tudo o que ele comeu foi o cachorro quente que compramos pra ele, e o sentimento de revolta, ah esse era o maior de todos, ele tomou conta de mim, eu não me conformava de forma alguma, aquele maldito dos infernos tava mexendo na vida de uma criança, uma CRIANÇA, um anjo de Deus, não, eu não conseguia aceitar aquilo de forma alguma, e a minha maior briga naquele momento em meio a tantos sentimentos misturados, a raiva do diabo era grande, muito grande, eu queria que naquele momento se materializasse na minha frente pra eu matar esse desgraçado de vez. Eu pedi tanto pra Deus ajudar esse menino.
Sequei as lágrimas que ainda assim insistiam em cair e subi para o salão novamente, não consegui ficar perto dele, e então fui para o meu lugar, cuidaram dele como se fosse um filho, minha Irmã mais nova ficou com ele a reunião toda conversando, ao fim da reunião o pastor veio falar com ele, e disse que chamaria a viatura para levá-lo novamente pro abrigo, nesse momento ele quis ir embora, levantou e queria ir pra rua, nós não deixamos. Meus pais desceram da reunião extra que teve para os autônomos e então falamos que o levaríamos para a sua casa, ele topou na hora, já se levantou do banco e fomos descendo. Quando chegamos a casa dele, a avó dele estava dormindo, meus pais entraram com ele para falar com ela, e ela achava que ele havia morrido meu Deus eu posso imaginar o sofrimento dessa avó. Eles ficaram cerca de uns 30 minutos lá dentro conversando. Nesse momento a felicidade de ter deixado ele em sua casa já me consumia de forma tão grande que eu tinha vontade de gritar pra todo mundo.
Meus pais vieram saindo da casa, quando estavam quase entrando no carro vem ele correndo dizendo pra minha mãe “a sua caneta”, nossa aquela carinha dele me completou, ele estava radiante, aquele menino triste que estava querendo voltar pra rua já não existia mais, ele estava com um sorriso de orelha a orelha, ah ele estava tão feliz, estava escrito no rosto dele, e eu claro, estava também kkk.
Senti-me com missão concluída, dentro de mim havia um alivio tão grande de ver aquele menino de volta a sua casa, nos braços de sua avó, no quentinho do lar. Fui dormir radiante, com uma alegria imensa dentro de mim.
Tenho certeza que ontem resgatamos um grande homem de Deus, e eu quero estar viva pra ver isso acontecer.

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